sábado, 23 de maio de 2015

A síndrome de vira-latas e a cultura do "traz outro então!"

Após Muricy Ramalho deixar o São Paulo, Milton Cruz passou a comandar a equipe sem deixar claro exatamente o que era. O dito técnico interino insistia - como ainda insiste - que "está" técnico, enquanto o caricato presidente do clube, Carlos Miguel Aidar, com extrema firmeza, cravou: Milton Cruz "é" o técnico do São Paulo.
Discursos divergiam, entretanto, o desejo por "manter tudo como está" abafou possíveis discussões, e Milton segue, ao mesmo tempo, "sendo" e "estando" técnico do tricolor paulista.
Milton continua por lá, e, apesar de Aidar dizer que banca o treinador, Milton porta-se bem ao manter questionamento quanto a isso. Aidar procura um técnico para o São Paulo. Isso é inegável. E o que mais é estranho em toda essa desavença de falas é a insistência do presidente em trazer o tal do treinador estrangeiro.
O presidente são paulino, amante de profissionais bonitos, esbeltos e com todos os dentes firmes fortes e saudáveis, também tem aquele fascínio próprio da nossa cultura permeada pela síndrome de vira-latas, que aliás perpassa o futebol: o bom é o de fora; o que temos aqui não nos é suficiente mais.
Aidar sonhava com André Villas Boas, muito caro; cogitou Sabella, não deu certo; pensou em Sampaoli, também não fora possível até o momento. A bola da vez é Osório, treinador do Atlético Nacional da Colômbia.
Osório, treinador do Atlético Nacional, é a ideia de Aidar
Não que não seja um bom nome, mas o treinador colombiano carrega consigo algumas características que não acredito eu que Aidar esteja a par.
Primeiramente, será que ele parou para pensar o que significa trazer um treinador que nunca trabalhou no futebol brasileiro durante o início do campeonato nacional?
Talvez signifique algo parecido com o que ocorreu com Gareca no Palmeiras, recentemente.
Aliás, pensemos: não há nenhum treinador brasileiro capacitado para treinar o tricolor paulista?
Desde Cristóvão, que pode estar rumando ao Grêmio, a Wagner Mancini, que fez ótimos trabalhos em Botafogo e Atlético Paranaense, mas caiu, como todos, no final, sempre caem. O futebol brasileiro conta com ótimos treinadores, e que sobretudo conhecem os campeonatos, os times e os jogadores que temos aqui. O problema não reside nos treinadores, mas na impaciência de clube e torcida; na ausência de projetos; no dinamismo do mundo da bola que exige sempre algo novo, o tal do "novos ares". Besteira. Desde quando é necessário que depois de um tempo procure-se um treinador novo pelo ar novo, tão somente pela novidade?
Alex Ferguson é o maior exemplo disso. Demorou alguns anos para satisfazer torcida e diretoria, que o bancaram. Foram anos de jogadores pouco conhecidos, muitos jovens e resultados improdutivos. O primeiro título? F.A. Cup depois de quatro anos. O primeiro campeonato inglês, depois de sete anos. O resto dessa história de persistência todos já sabem: 26 anos no clube, 13 Premier Leagues, 9 copas nacionais, 10 Supercopas, 2 Champions Leagues, 1 Taça Intercontinental e 1 Mundial de Clubes.
Agora, pensa-se: não dá para apostar em mais tempo de trabalho?

Sério que não tem como dar mais tempo?
Osório enquadra-se no tipão que Aidar procura: um estudioso do futebol. Trabalhou de 2001 a 2006 como assistente técnico no Manchester City e ganhou muita experiência profissional com isso, é inegável. Além disso já trabalhou na liga americana, mexicana, colombiana e é pós-graduado em ciência do futebol na Universidade de Liverpool.
Eu repito: não há dúvidas de que é o tal do estudioso do futebol.
Mas o que significa trazer um treinador desses para o futebol brasileiro?
Como se portarão os diretores, os torcedores e até os jogadores quando primeiras derrotas chegarem?
A nossa "cultura" será lembrada, pois não se banca treinadores que perdem jogos em sequência no país do futebol.
Exemplo mais que recente disso é Ricardo Drubscky, que treinou o Fluminense em tamanhos oito jogos e teve seu trabalho avaliado como ruim após longa e apurada investigação durante a porção de oito partidas disputadas; além dele, seu próprio substituto no Flu, Enderson Moreira, restou bem mais que Drubsky, onze jogos no Vitória, após também cair e partir rumo às laranjeiras.
Então resta saber: essa vontade do São Paulo trazer um treinador estrangeiro vai concomitar com apoio da direção para que o mesmo possa desenvolver sua metodologia de trabalho que tanto Aidar elogia?
Esperemos.
Caso o São Paulo o contrate, e Osório dure poucos meses, não se assuste.
Nada irá mudar. Foi só mais uma tentaiva que não deu certo.
Segue o jogo.

E ouviremos de Aidar: "traz outro, então!"

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A lição que Tite pode dar ao imediatismo que o tirou e o recolocou no cargo de treinador

Tite volta ao Corinthians uma temporada depois de deixar o clube. Sua saída no final de 2013 tornava-se iminente à medida que os jogos sucediam e a equipe, apesar de uma defesa sólida- a melhor do campeonato(22 gols sofridos)-, pouco marcava e terminou a competição nacional com 17 empates e com o segundo pior ataque da competição( 27 gols marcados) a frente apenas do então último colocado, Náutico( 22).
Apesar de todo o sucesso de Tite na sua segunda passagem pelo time do Parque São Jorge- título brasileiro em 2011, título mundial em 2012 e a tão sonhada primeira Libertadores do clube, no mesmo ano-, a diretoria optou por demiti-lo e negociar com Mano Menezes. As sensações de esgotamento e imediatismo que são cultivadas no futebol brasileiro , mais uma vez, prevaleceram, e criou-se a ideia de que era necessário o famigerado "novos ares". Tite caiu. Mano chegou. O 2014 do Corinthians, com Mano, não foi de todo ruim: em um ano de trabalho, o ex-técnico da seleção brasileira deixou o clube em um respeitável quarto lugar que classificou a equipe para a pré-libertadores do ano que vem. Alguns questionam: "respeitável? Com o elenco que o Corinthians tem, era obrigação fazer muito mais que isso."
Mano Menezes, após um ano de trabalho, deixa o Corinthians
Entendo que a pressão por títulos e por boas atuações, em um clube do tamanho do Corinthians, é grande. Todavia, pensar assim ignora as dificuldades de um campeonato tão disputado como o brasileiro e a igual ânsia por títulos de outras equipes- igualmente capacitadas como a então equipe de Mano. Exigir o título e entender qualquer outro resultado como "vergonha" faz-se uma postura mais emocional que racional. Própria de torcedor, não de diretoria.
Entretanto, os serviços prestados por Mano em 2014 foram considerados insuficientes para assegurar a permanência do treinador para a próxima temporada. Mesmo que o fosse, há de se considerar: Mano tinha um trabalho de um ano em desenvolvimento e relutava para encontrar uma forma da equipe jogar; parecia tê-la encontrado. Pouco importou isso. Mano caiu. Tite voltou. Alguns podem ver a volta de Tite como um arrependimento da diretoria corintiana; outros, como eu, enxergam simplesmente uma forma de trazer outro "novo", porque o que estava no cargo- por apenas um ano-tornou-se obsoleto. Fez-se preciso outra opção.
Tite volta ao Corinthians em nova aposta
Em meio a essas trocas de treinador, vê-se uma possível e interessante consequência: se Tite fizer uma boa campanha nessa sua volta, entender-se-á o quanto foi um erro demiti-lo um ano atrás e consolidará a ideia de que sim, é possível pensar à médio/longo prazo no Brasil. O Corinthians então perceberia que poderia ter feito isso e que poderia ter ganho mais o fazendo. Às vezes vale mais um ano de trabalho ruim com o mesmo treinador que o dará glórias no futuro, que trocar incessantemente à procura de um resultado rápido e instantâneo. Para isso, precisa-se pensar no futuro. E, acima de tudo, acreditar nele.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Goiás 0 x 3 Santos - Vitória santista sacramenta evolução do time em 2013. Precisa mudar?


O Santos, após vencer o esmeraldino dentro do Serra Dourada, encerrou e confirmou a boa campanha no Brasileirão 2013. Boa, visto a perda de jogadores como Rafael, Felipe Anderson e principalmente Neymar, somado ainda a saída do técnico Muricy Ramalho no início do campeonato nacional. Terminá-lo na sétima colocação como o fez, deve ser algo a comemorar.


No entanto, o futuro da equipe é incerto. Claudinei Oliveira não deve seguir no clube praiano e certamente, essa mudança deve criar uma dúvida para os santistas. "E ano que vem?"
O, ainda, atual treinador do Peixe fez um grande trabalho ao longo do campeonato. Rapidamente encontrou uma maneira da equipe atuar e, utilizando diversos jogadores, até então desconhecidos, provindos da base, fez com que o time possibilitasse boas esperanças ao torcedor para o ano seguinte.
Porém, a esperança de visar algo ambicioso ano que vem, pode ser mera ilusão ao fanático torcedor alvinegro.
A diretoria do clube já mantém conversas adiantadas com Oswaldo de Oliveira e provavelmente, o carioca treinará a equipe em 2014. Claudinei então, cairá. Contudo, há quem duvide se será essa a melhor decisão.
Técnico Oswaldo de Oliveira próximo de trocar o Fogão pelo Peixe.
É possível que, se o jovem técnico fosse mantido no cargo e prosseguisse o trabalho que vinha se acertando durante a temporada, somado a reforços pontuais no carente elenco santista, a equipe pudesse sonhar alto. O elenco já assimilou a ideia do treinador e tudo vinha caminhando e evoluindo aos poucos. Há motivos para não dar sequência a essa evolução, e apostar na permanência do treinador no cargo?
A pergunta é exaustivamente conhecida, assim como sua resposta, pelo amante do futebol brasileiro.
A cultura isso, aquilo...
Esse histórico aprisionante de tempo máximo de cargo para um treinador em uma mesma equipe atormenta os ideais de audaciosos dirigentes, que não o são tanto assim, como queriam, na hora de pô-los em prática.
Caberá, um dia, ao dirigente de algum clube, quebrar tal tradição, e acreditar no trabalho a médio-longo prazo, com tanto sucesso em países europeus, todavia rejeitado no "País do Futebol".
Enquanto isso não acontece, segue a mais nova tentativa do Santos. Apesar de ter um bom trabalho em mãos, apostará em outro, visto, pelo clube, com mais segurança.
Tal segurança, ou a falta dela, pode ser justificada quanto a idade. Um ou outro, mais, ou menos experiente. São dois treinadores que já mostraram competência e que, se distinguem na maneira de trabalhar. A questão se dá no abandono de um trabalho já iniciado e em desenvolvimento, por outro que ainda terá de ser preparado.
Não que Oswaldo, não possa realizar um bom trabalho no octacampeão brasileiro, é até possível que o faça, trata-se de um grande treinador. Mas a necessidade de tal mudança é que se mostra discutível.
Pode-se considerar que, em situações como essa, a cultura do futebol brasileiro prevaleça. Desafiá-la parece muito arriscado para os clubes atualmente. Um dia ela pode mudar, quem sabe. Mudará quando, em ocasião parecida, os dirigentes a contestarem e buscarem o diferente, o inovador, o estranho.
A cultura do "sucesso" nos torneios nacionais pode ser mudada, e quem o fizer primeiro, poderá se destacar dos demais. Seja positivamente ou não. Porque não tentar?


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Semifinal Copa Sul-Americana: Ponte faz valer a perda de mando, dentro do mando adversário.

São Paulo e Ponte Preta fizeram, na noite desta quarta feira, a primeira das duas partidas da semi-final da Copa Sul-Americana. Estádio do Morumbi com mais de cinquenta e três mil pagantes, torcida tricolor entusiasmada, Ponte com remotíssimas chances de não ser rebaixada pelo Brasileirão e sabendo que não terá seu estádio (Moisés Lucarelli) disponível para o segundo jogo da competição internacional. Todo o cenário era indiscutivelmente favorável para a equipe da capital paulista encaminhar a vaga rumo a final. Mas, curiosamente, foi este o cenário que fortaleceu a equipe campinense.
Primeiramente, a semi-final já havia começado nos bastidores das equipes semanas antecedentes à partida. O São Paulo alertou a desatenta Conmebol que o estádio da Macaca tinha capacidade para apenas 16,9 mil lugares, uma vez que, para uma semi-final da competição são precisos 20 mil assentos. Tal atitude, provocou a ira dos dirigentes alvinegros que classificaram a atitude como "mesquinha" e não irão poder atuar em Campinas no jogo de volta, assim, a segunda partida será realizada em Mogi Mirim no estádio Romildão.
A atitude da diretoria tricolor, apesar da irritação dos pares ponte-pretanos, pode ser considerada viável já que, buscou nas regras do torneio, para alegar por segurança e conforto e buscar uma brecha para tirar o estádio do adversário no segundo jogo. No entanto, mal sabia o perigo que passaria a correr com tal decisão.
A equipe alvinegra, chegou atiçada com o tricolor. Fez valer o conflito fora de campo dentro dele e, contando com a pouca objetividade do adversário e com seus contra golpes rápidos, venceu o São Paulo por 3 a 1 e se aproximou de sua primeira final em um torneio internacional.

Leonardo comemora gol da virada da equipe de Campinas sobre o São Paulo.
Não, a causa da derrota do São Paulo não foram os assuntos extra campo. Mas é perceptível como esses afetaram a equipe da Ponte. Veloz, objetiva, contundente. Com mais uma grande exibição tática na Copa Sul-Americana, a equipe campinense dominou o São Paulo sem que ele percebesse. Jogou o favoritismo para o tricolor e apostou em contra-atacar o adversário, e, juntando isso com o atiçamento provocado durante a última semana, encontrou forças para vencê-lo.
Depois que o apito inicial foi dado, parecia que a equipe do estádio que suporta cinquenta, sessenta mil torcedores, partiria com tudo para mais uma de suas finais internacionais. E não demorou. Aos 20 minutos da primeira etapa, Paulo Henrique Ganso colocou um belo chute de direita no canto do goleiro Roberto e fez a festa do torcedor são-paulino. A partir daí, a equipe mandante pouco fez. O adversário adiantou a marcação e passou a infernizar o lado direito da defesa tricolor, onde Rildo com as subidas de Uendel fizeram a jogada do gol de empate. O gol afetou o apático atual campeão sul-americano. Já a atiçada Ponte, se aproveitou da apatia tricolor para ofuscar um segundo gol, e o fez. Após chute de Rildo e defesa milagrosa de Rogério Ceni, que igualou Pelé ao completar 1116 jogos pelo clube do Morumbi, Leonardo aproveitou o rebote para virar o jogo.
Já apático, o time da capital paulista se desestabilizou ainda mais. Muricy colocou Welliton e o presunçoso Luis Fabiano, e o time chegou, de uma forma desorganizada, a assustar a Ponte que, se mantinha em seus contra-ataques objetivos, permanecendo atacando o São Paulo, tanto o fazia que marcou o terceiro em chute desviado de Uendel em Wellington, coroando a ótima atuação do lateral-esquerdo da Macaca.
O apito final foi assoprado pelo argentino Diego Abal e os 3 mil e quinhentos ponte-pretanos, revoltados com a perda do jogo em Campinas, comemoraram. O alvinegro pode até perder por dois a zero em Mogi que segue para a final da competição.
Ao São Paulo? Talvez uma lição. Com pouco poder de reação, o tricolor foi derrotado. Dentro e fora de campo.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Quem não arrisca...


Termina-se a 34ª rodada do campeonato brasileiro. Uma merecida ressalva ao Cruzeiro, o mais novo campeão nacional. Após vencer o Vitória no Barradão, a equipe celeste pôde confirmar aquilo que era esperado há tempo e levantar a taça, já erguida simbolicamente na rodada anterior contra o grêmio, do tricampeonato.

Cruzeiro vence Vitória no Barradão e comemora seu terceiro título nacional.
Não há quem possa discutir a campanha cruzeirense no campeonato deste ano. A equipe desde as primeiras rodadas mostrou que iria sonhar. A algum período sem incomodar a parte de cima da tabela, era justo vislumbrar uma ótima e satisfatória vaga na Libertadores, mas eram poucos os que acreditavam que esse grupo chegaria tão longe. E chegou.
O cruzeiro não brilhou em 2012. Terminou o campeonato em um humilde 9° lugar e foi eliminado nas oitavas de final da Copa do Brasil para a equipe do Atlético-PR. A torcida estava descontente, os jogadores pouco motivados e a diretoria...
Agiu!
Demitiu Celso Roth e buscou Marcelo Oliveira antes dispensado do Coritiba. Mudança que trouxe descontentamento de grande parte da torcida da Raposa. Marcelo, quando jogador, vestiu a camisa do rival Atlético-MG durante 7 anos, profissionalmente e não era, nem de longe, o preferido dos torcedores para ficar no comando do clube. Mas ficou. E hoje não se encontra um torcedor cruzeirense que lembra de sua passagem pelo Galo mineiro.
Agindo, a diretoria se arriscou. Vendeu o até então ídolo Montillo, que já não tinha as mesmas atuações de 2011, ao Santos por cerca de R$16 milhões e recheou seu elenco de novos jogadores. Bons jogadores.
Foram gastos em torno de R$30 milhões de reais em peças que poderiam fortalecer a equipe, e o fizeram. Nomes como Éverton Ribeiro, Lucca, Ricardo Goulart, Dagoberto, Luan, Henrique, Souza, Nilton, Bruno Rodrigo, Dedé e outros pouco tempo aproveitados, tais como Ananias e Diego Souza, foram contratados para, junto a bons jogadores surgindo da base celeste, formar uma estrutura forte o suficiente para a disputa da temporada, em especial, o Brasileirão 2013.
Esse planejamento, pode ser considerado arriscado ou aos mais exagerados, "suicída", uma vez que, se não causasse o que causou, levaria o clube à uma grave crise financeira, sem tirar um mínimo lucro do investimento e os dirigentes que agora comemoram, fatalmente, estariam longe de qualquer ligação política com o clube.
Enfim, o novo campeão brasileiro arriscou, e acertou. Há quem discorde se foi a escolha mais coerente ou sábia, mas acertou.